“Simplesmente eu, Clarice Lispector”.

Às vezes me acho insensível. Vivo – se ousar chamar essa parte de vida – no piloto automático. Ando, respiro, durmo, como e nada se registra, nada fica, muito menos alguém percebe. A maioria dos meus dias, e me arrisco a dizer que a de muitas outras pessoas, é assim. Por quê? Sei lá. A velocidade dessa era tecnológica cansa, estressa, incapacita-nos. Pode ser. A angústia aumentou nesses últimos anos.Talvez. Nada disso posso afirmar, mas sinto que não sinto, assim como muitos outros. Mas, de repente a vida vem e explode aos nossos olhos. Para cada pessoa, essa explosão é diferente e extremamente particular. Também pode ser incompreensível aos outros. Cada um sabe de si, não é mesmo? Contudo, a vida explode aos nossos olhos, sim, e a gente sente, tanto que – perdoem a redundância – o sentimento explode pelos olhos. Pode ser uma cena em um parque, um filme, um livro, um pensamento, ou, como no meu caso, uma peça.

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Simplesmente eu, Clarice Lispector é um projeto dirigido e representado por Beth Goulart. A atriz se entrega, deixa de ser Beth metamorfoseando-se em Clarice. No espetáculo, está Clarice e suas personagens, suas entrevistas, seus sentimentos, sua vida, seu amor. Mais que qualquer outra coisa, o amor está presente. O amor pela vida, pela escrita, por si próprio como o maior sentimento existente. Ela questiona seus propósitos no mundo, seu interior, a existência própria e mundial, mas nunca, em nenhum momento, deixa de amar. A peça se faz valer por tudo: atriz maravilhosa, texto inteligentíssimo (desnecessário comentar, não é mesmo?), cenário intrigante, figurino belíssimo, iluminação funcional, é um pacote completo. Além de tudo isso, nos faz sair de lá famintos por Clarice Lispector.

Lembro que, no meu segundo ano ensino médio, tivemos que montar um trabalho sobre um dos contos do livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, reunidos por Ítalo Moriconi provenientes de grandes autores brasileiros. Passei pelos contos, escorregando pelos títulos, afinal eram cem, mas me recordo que parei no de Clarice. O conto era Amor que discorria sobre uma dona de casa que passou do seu ponto do bonde e acabou se redescobrindo. Na época li e achei chato. Sim, confesso, chato. Por favor, entendam, eu era uma adolescente que não queria ler sobre frustrações, buscava por coisas mais leves. Hoje reouvi esse texto, durante a peça, e nenhuma palavra define o que senti (talvez, somente inexplicável na maior catarse possível).

Clarice Lispector pede que nos entreguemos ao amor e a vida. Pois então, durante aquele espetáculo, eu estava entregue àquelas palavras e, principalmente, às minhas emoções. Desde o seu nascimento até a sua morte, Clarice me guiou a pura reflexão. Dividi o trabalho em três partes, a fase da culpa e dos porquês do início da sua existência, depois transferida para a insuficiência presente na vida – pouquíssimo tempo para tanto sentimento – que a limita e terminando no medo do abandono que a morte trará, restando-lhe apenas – e graças a Deus – o amor.

Liberdade, amor, fé. Ano passado assisti à duas peças (sobre as quais fiz um breve comentário aqui) que questionavam pontos importantes da humanidade: o tempo e a própria existência. Com “Simplesmente eu, Clarice Lispector” percebi que meus questionamentos devem ser guiados pelo amor, acompanhados pela fé e preservadores da liberdade. A peça é incrível. Tanto que penso: se um pequeno pedaço de Clarice, uma releitura, é assim, imagina como ela própria deve ser? Saí de lá com lágrimas expostas e faminta por Clarice.

Para acompanhar a peça, é só curtir a sua página no Facebook.

Em cartaz até o dia 23/02 no Teatro Eduardo Kraichete – em Icaraí, Niterói, RJ.

 

Obs: Nº 44 – Chorar com uma peça.

Sobre novos hábitos: Peças.

Nesse novo período de faculdade, frequento uma aula cujo nome é Fundamentos do Teatro. Não me perguntem o que são esses tais fundamentos. Não saberia dizer, mas espero poder daqui há alguns meses. Enfim, meu professor tem uma alma apaixonada. Sabe aquele tipo de pessoa que quando gosta de algo se entrega com o olhar? Exatamente. Ele nos mostra seu amor pelo teatro sem precisar falar muito. E, para minha sorte, ele tem repassado esse amor para mim. Obrigada.

Nunca fui de frequentar teatros, nem aulas do mesmo, mas, como todas as crianças, fui ver a umas das incontáveis montagens de Peter Pan e, mais tarde, rir com Zezé Polessa em “Não sou feliz, mas tenho marido” e com Paulo Gustavo em “Minha mãe é uma peça”. Aquele típico ‘vou ao teatro para me divertir’. Agora, também vou para pensar, para aprender, para, acima de tudo, sentir.

A primeira peça que fui foi A Outra Cidade.:

“Adeus, juventude.”

A peça se passa em uma cidade litorânea que está sob alarme de uma catástrofe natural e conta a história de uma família que luta entre a preservação de seus costumes e a saída de sua cidade.

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Contando com a ajuda de um leve e nada assustador sobrenatural, de um humor bem localizado e eficaz e ótimos atores, você a assiste com a sensação de que eles nunca sairão daquela pré-destruição. Eles se rebelam contra o tempo e contra as mudanças da vida, mas não é o que todos nós fazemos? Um adolescente depressivo, um pai relapso, um irmão inseguro, uma noiva impertinente, uma tia espirituosa, um cego/general/garçom expressivo e uma mãe morta. São os personagens que nos fazem refletir sobre o que passa na nossa cabeça quando é preciso abandonar as tradições, sem destruir o que antes era pensado para o futuro.

Ótimos atores. Texto simples e preciso. Grande impacto mental.

A Outra Cidade: de Pedro Brício.  Em cartaz no CCBB-RJ, de 20 de setembro a 10 de novembro. De quinta à domingo, às 19:30h.

A segunda A Alma Imoral: 

“Haverá pior solidão do que a ausência de si?”

Baseada no livro homônimo de Nilson Bonder, A Alma Imoral desconstrói e mexe com a nossa consciência, questionando até a sua própria razão de ser. Debate sobre o certo e o errado, o bom e o ruim, traição e tradição.

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É perturbador assistir a essa peça – no melhor sentido. Clarice, primeiro nos conta como criou a peça, e depois fica nua. Assim. A nudez não existe na natureza. Você se esquece disso assim que ela começa a falar. Questiona à nós e à história sobre o corpo moral e a alma imoral. Nos faz perceber que a alma pura é uma invenção e que a biologia e a religião modificam o que fomos feitos para querer. É a mais pura reflexão sobre a essência do ser humano. Você sai do teatro uma nova pessoa se tiver deixado levar-se, como a judia budista sugere. Ela nos leva numa viagem sem volta, passando por fábulas e Clark Kent, chegando ao esperado: uma epifania.

A Alma Imoral, adaptação de Clarice Niskier. Em cartaz até amanhã no Teatro Eva Herz, Rio de Janeiro. http://www.almaimoral.com/