Trecho de uma carta ainda inacabada.

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(…) Posso escrever pela milésima vez o famoso “vou mudar”, mas para quê? Ele é mais inútil que um parafuso para um macaco. Primeiro pensei em como mudaria e, então, escrevo: prestarei mais atenção nos detalhes. Desde o brinco que me deixou feliz até as poucas palavras que restam da minha avó, vou moldar minha vida nesses detalhes. Acho que é o caminho certo a seguir.

Não sei o que acontecerá com a minha reserva. Acho que tenho que aprender a equilibrá-la com o turbilhão de emoções repetidos ou não que preciso aprender a expressar mais ou melhor ou ambos.A complicação nem é achar esse tal equilíbrio – não deve ser tão difícil, muito menos impossível -, mas conseguir conciliá-lo com o meu aprendizado sobre a solidão. A maioria dos cancerianos que conheci tem problemas com a solidão. Nós não conseguimos lidar com multidões por muito tempo. Acabamos sempre gritando pelos nossos quietos cantinhos. Contudo, não é fácil lidar com o excesso de solidão. Nem muito, nem pouco: precisamos aprender que nós não estamos sozinhos enquanto tivermos a nós mesmos. Essa é uma guerra vitalícia. De batalha a batalha,  lutarei contra a ausência de mim da Alma Imoral até os últimos dias. Isso eu prometo.

Acho que acabei escrevendo o velho vou mudar de qualquer forma. Enfim… (…)

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O fantasma e a borboleta.

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     “We might as well be strangers in another town. We might as well be living in different world.”

Era um dia comum com os amigos. Ela se despediu, precisava ir para casa, já estava ficando tarde. Parada no semáforo, pronta para seguir em frente, ela o viu. Um dos fantasmas da sua adolescência, neste caso, porém, do final dela. Um tanto mudado, o fantasma estava do outro lado da travessia. Ela piscou, respirou muito e esperou as borboletas. Elas sempre foram tão espertas, tão presentes. Às vezes, apareciam antes das correntes e dos uivos dos fantasmas porque ficavam à espreita, esperando por algum sinal que lá no fundo acordassem as assombrações.

Abriu os olhos, olhou diretamente para o espectro e… nada. Onde estavam as malditas borboletas? Estou preparada dessa vez! venham covardes! Nada. Ela continuou em frente, espantada até o meio da travessia e assim que percebeu que elas – as malditas borboletas – teriam, enfim, entrado no mundo inferior de Hades, abriu um sorriso, jogou os cabelos para trás e suspirou aliviada. Era o fim.

Os fantasmas não iriam mais assustá-la. Ela não era mais uma garotinha indefesa, era uma mulher. E as borboletas malditas? Ela sabe que um dia elas podem ressuscitar, fortes e corajosas, inescrupulosas e intrometidas. Mas, sabia que, se fosse necessário, ela sabe  que possui as armas para derrotá-las: o tempo. Enquanto elas não estão fortes o suficientes para que ela se renda, o tempo curará tudo e, se estiver com sorte, ainda trará de brinde experiência.

Agora os fantasmas são meras lembranças de quando era garota. Agora ela cresceu. Agora ela espera pela batalha em que valerá a pena a rendição as malditas borboletas. Ela foi para casa sorrindo, com a mais pura felicidade, aquela que vem de companhia a liberdade. seu coração suspirava aliviado agora. Enquanto esperava sua carona, o vento, inspirado pelo tempo, também trouxe de presente uma simples flor. Ela a pegou, sorriu e agradeceu.

O abismo matinal de Alice.

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Os dias começam iguais e mimados. Levanto cambaleando para tomar o café com leite de todo dia na mesa que meus pais arrumaram, com o café que eles fizeram. As proezas de ser filha única e abençoada pela vontade divina de algo bem maior do que nós, que insistem em me mimar e pela qual sou eternamente agradecida. Pego minhas coisas e rumo para a vida. 

Estou sempre no mesmo ônibus. Vejo rostos familiares que não se se reconheceria fora do veículo. Se dei sorte e estou sentada, saco o livro da vez de dentro da bolsa e começa-se assim a aventura. “Esses dois meses de férias me tiraram do ritmo”, penso focada na sensação de náusea que avança sobre mim. Logo, logo, eu voltarei à velocidade antiga. Livro aberto, fones de ouvido, ônibus cheio, vamos lá. O livro da vez é On the Road, de Jack Kerouac. Lá estava eu, subindo e descendo os elevados do Rio de Janeiro. Os mesmos de todos os dias. Lá estava eu, perdida no meio do dia a dia de Sal em Denver, ainda no início do livro. Em um começo bem detalhado de quase nada, de coisas que poderiam ter sido ditas em metade das folhas que já li. Penso sobre isso e começo a achar que possa ser proposital… Bem, não era meu intuito aqui resenhar o miot da geração beat e sim falar sobre como eu caí.

Eu estava mergulhada nas páginas, ouvindo Sal descrever os seus dias, com todos os detalhes, pensamentos e, até então, inércia. Voei pelas páginas sem perceber. E voltei a mim porque pensei que aquele era o livro preferido de uma amiga muito querida. Ali, naquele exato momento, eu era Alice atrás do coelho de relógio de bolso, caindo em um abismo matinal. Durou um segundo eterno. Esqueci onde estava, quem eu era e para onde estava indo. Bateu aquela solidão, como se eu fosse o último ser humano em um quarto escuro e sem chão. Tudo isso em um piscar de olhos. Ufa, o mundo tinha térreo de novo. Fechei as páginas que me fizeram seguir o coelho e comecei a escrever esse texto sem pé nem cabeça. Sentia que precisava contar para alguém aquela sensação tão inexplicavelmente nova. Ouvi uma frase em uma peça em que a atriz que monologava nos indagava: “haverá pior solidão do que a ausência de si?”. Pela primeira vez me senti ausente de mim e não, não há. Constantemente, preenchemos nosso dia com gostos e desgostos que nos fazem sentir melhor, mais acolhidos, talvez. Eu não sei porque esse livro me levou a sentir isso, nem mesmo sabia que estava tão fundo nele.Sei que senti e foi aterrorizante. Vi que não importa muito estar sozinha, mas não conseguiria viver completamente só, ausente, inclusive, de mim. Por isso, sigo o coelho para achar a saída, exatamente como Alice fez. Para que, assim, eu não veja até mesmo o desânimo como algo tão simplório. “Que desânimo! Que desânimo!”

Introduções Inacabadas

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Eu queria poder escrever livros como os da Martha Medeiros. Aqueles de estilo leve, nos quais a leitura é um verdadeiro prazer e você nem chega a ver a hora passar. Além disso, possuem o português mais correto, porém não rebuscado. São simples e espetaculares. Eles se identificam com o seu interior, mesmo que superficialmente. Sim, contraditório. É aquele gostar não gostando porque não parece ser cult bacaninha o suficiente. Eu os adoro. Ah, como eu queria escrever livros como estes.

Não me vejo escritora, mas permaneço com a vontade contínua de escrever. No entanto, tem um único problema, somado a tendinite no braço direito, que me assombra. Sofro de um mal de aparência irremediável: o mal das incontáveis e eternas introduções. Não é raro vir um início de texto bonito na minha cabeça. Ele surge do nada e some com a mesma rapidez. Não tenho tempo nem de pegar papel e caneta ou de ligar meu computador. Como é triste… É frustrante.

São introduções inesgotáveis, acompanhadas de desenvolvimentos vazios e conclusões inexistentes. Ah, coitada da minha professora de português, Carol. Dei tanto trabalho à ela no meu ano de vestibular… Um parágrafo de introdução, dois ou três de desenvolvimento – cada um com seu argumento e interligados por uma conjunção – e um conclusivo. Escrevi várias redações e graças à ela e a Deus tirei nota boa na redação. Muito obrigada, mais uma vez e sempre.

Na minha primeira aula da faculdade, minha professora de Fundamentos da Literatura nos apresentou um livro de introduções. Eram dezenas, ou talvez centenas, de introduções. Não importava se você queria o resto desta ou daquela história, isso aqui é tudo o que ganhará de mim, disse o livro. Na época, achei-o interessante, mas ele ficou esquecido no baú da memória. Agora ele ressurgiu meio apagado, sem dúvida, de lá, gritando que se parecia comigo.

As introduções surgem em geral quando deito minha cabeça no travesseiro. Aquele momento em que você para para pensar sobre o seu dia, ou o que está fazendo com a sua vida, ou ainda como será o dia de amanhã. Eu imagino textos nessa hora, ou melhor, tento porque eles só começam. Os danados insistem em não me deixar dormir. Eu sempre penso no tema principal e fico repetindo para amanhã continuar a escrevê-los. Cadê que no dia seguinte eu me lembro? E ainda dizem que é durante o sono que guardamos os aprendizados do dia… Só sei que esse texto nasceu assim. Deitada com minha cabeça no travesseiro, prestes a dormir, à uma hora da madrugada. Ele apareceu e, pela primeira vez, deu tempo para eu pegar algo e transcrevê-lo.

O que será que essas inúmeras introduções significam? Vamos Freudiar um pouco. Podem tentar mostrar sonhos e vontades que, através de palavras, se revelam emergindo do meu subconsciente… Quer saber? Tanto faz. Próxima! e, por favor, deixe-me pegar meu lápis.

Brain Storm.

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Fonte: http://www.ideafixa.com/8-imagens-ineditas-do-espaco/

[Vou começar a viajar aqui. Preciso escrever esse texto. Não busque por concordância nessas próximas frases.]

Começarei a escrever pelo  lado direito, para ver se dá sorte. Santos Dumont era supersticioso, então também serei. Vi essa foto do universo e me deu uma sensação de pequeneza. Gente, como eu não sou ninguém. Nem eu, nem Stephen Hawking. Tudo é tão bonito, tão grande e tão distante. Obrigada, Deus, Alá, Zeus, Rá, quem quer que seja que tenha criado isso tudo. Mas que tudo é esse?

Tenho como ídolos aqueles homens antigos e novos que pensam nas frases mais emblemáticas da história “quem somos nós?”, “para onde vamos?” e “de onde viemos?”. Ah, esqueci do “estamos sozinhos nisso tudo?”. Os gregos, os humanistas, os renascentistas, os iluministas, o pop art, o clube de esquina. Tudo é tão maior do que eu. Eu sou um nada. Um nada valioso. Porque não há ninguém nem nada igual a mim. Não há nada igual no que conhecemos de existência. Desde uma única molécula, até o universo. Tudo é diferente. Quanta imaginação!, não? É isso o que tenta provar que há algo maior do que nós, simples seres humanos.

O que será maior? A imaginação ou o universo?

Ao mesmo tempo em que não há nada igual, é tudo uma repetição do mesmo. Pelo menos, é essa a sensação. As estrelas são iguais ao longe. E a maioria dos seres humanos tem cinco membros. Entende o que eu quero dizer? O real é diferente (e, de acordo com Jacques Lacan, inatingível). O superficial é só mais do mesmo.

O que explica isso tudo?

Sabe porque admiro tanto as pessoas que param para pensar nessas coisas? Porque eu não faço isso. O pouco que paro para pensar já me assusto. O melhor é ter consciência disso e continuar. Para onde quer que seja.