“The Retuned” e a temática do morto-vivo renovada.

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A Netflix acerta mais uma vez produzindo a adaptação de uma série francesa “Les Revenants”, que se traduziu em “The Returned”. Em português só consegui pensar em “Os que retornaram” como tradução, o que resume o enredo da série: algumas pessoas de uma cidade pequena que morreram voltaram à vida anos depois. Não assisti a série original, mas pelo que li é o mesmo enredo, mesmos personagens, mesmas cenas. Aliás é interessante notar que, para quem assistiu a série original, “Les Revenants” é superior e a americana é apenas uma cópia mal trabalhada. Como eu fiquei curiosa e tenho pouco tempo, li as sinopses de cada episódio na página da série francesa no Wikipédia e percebi algumas diferenças. Elas existem, mas são bem poucas. Já ouviram falar de que qualquer adaptação é uma nova obra, uma nova releitura? Traduções são uma diferente obra com uma outra visão. No caso de “The Returned”, os americanos estão contando a história do jeito deles. E eu diria, apesar de muitas perguntas sem respostas, que eles estão fazendo muito bem. Como eu ainda não tive acesso a “Les Revenants” irei apenas falar das minhas percepções de “The Returned”.

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A história inicia com a volta de Camille, uma jovem de 16 anos que morreu num acidente com toda a sua turma num ônibus escolar, Simon, um noivo que morreu no dia do casamento, e um assassino em série dessa pequena cidade. Eles voltam alguns anos depois com a idade com que morreram, sem nenhum tipo de hematoma, cicatriz, nada de ferimentos, e com memórias até perto de sua morte. Contudo, retornam com algumas diferenças, eles não conseguem dormir e a fome que sentem é enorme. Elas voltam mesmo que o luto já tenha terminado, ou como no caso de Camille, com familiares dos estudantes ainda a aprendendo a lidar com a perda de filhos de tão pouca idade. É perceptível que a carga dramática da série é bem alta e eles aliam essa carga com muita ação. A temporada é pequena, com apenas 10 episódios e aquele season finale que te faz morrer de vontade de continuar vendo.

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Essa temática é bastante presente na literatura e imaginário do homem. Quantos tipos de personagens existem que tem em comum a morte? Muitos. Alguns são vampiros, demônios, zumbis…Apesar de alguns preferirem beber sangue nesse retorno, ou estarem apodrecendo, uma coisa é certa: é incomum voltar. Eles sempre voltam diferentes e realmente são pessoas deslocadas da realidade. Acredito que esse tipo de temática está vinculada a vontade do ser humano de viver para sempre. Essa vontade de sobrevivência que nos faz desejar a imortalidade, a continuar a sentir o vento no rosto, o coração acelerado e as pequenas alegrias da vida. Mas ao mesmo tempo, a dificuldade que seria se tornar obsoleto, perder pessoas queridas e se cansar das intempéries da vida. Em “The Returned”/”Les Revenants” ainda estamos aprendendo sobre “Os que retornaram”, o que eles são, suas habilidades, seus objetivos. É um tipo de morto-vivo muito interessante e numa roupagem nova. Vale a pena conferir essa criatividade e história envolvente!

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Sobre o porquê do meu autor preferido ser Stephen King.

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Fonte: http://assets.rollingstone.com/assets/2014/article/stephen-king-the-rolling-stone-interview-20141031/172368/large_rect/1414184818/1401×788-king_final.jpg

Eu acredito que, para leitores compulsivos, falar de apenas um autor é algo complicado e até mesmo polêmico já que é muito pessoal. Muito. Mas vamos lá, eu parei para vasculhar minhas lembranças esses dias. Desde cedo, eu sempre fui medrosa, mas sempre gostei de terror, e por isso eu procurava sempre o mesmo tipo de história. Encontrei a série “A Rua do Medo” de R.L. Stine. Virei leitora de contos de suspense para jovens leitores publicada pela querida Rocco. Conheci diversas sagas ótimas para a minha idade, como “A Mediadora” de Meg Cabot e “Circo dos Horrores” de Darren Shan.

Mas, voltando ao eterno mestre do terror, Stephen King tem uma quantidade invejável de obras publicadas e adaptadas a filmes e séries. Ele, que nasceu em 1947, publicou sua primeira obra “Carrie” em 1974 com 27 aninhos. Para vocês terem noção, na minha pesquisa eu contei 43 obras de ficção publicadas, isso tirando livros de contos, livros não-ficcionais, livros de pseudônimo e livros da série “A Torre Negra”. E isso está em aberto, pois ele está com 67 anos em plena forma com obras ainda em processo e lançamentos para o próximo ano. Em 1999, o escritor, já famoso, foi atropelado. Perdeu a memória dentre outros danos como o quadril fraturado e a perna quebrada, mas depois de meses de recuperação ele já estava de volta ao ofício. Antes disso, teve dependência em bebidas alcoólicas quando sua mãe faleceu um pouco antes da publicação de  “Carrie”. Ele foi alcoólatra por bastante tempo até cortar totalmente sua relação com o vício em 1980 e viver até os dias de hoje sóbrio (e saudável, graças a Deus). Desculpa a falta de imparcialidade no texto, mas ele é meu herói. E acredito que a mulher dele teve e tem um papel muito importante em quem ele é. Ela o ajudou a fortalecer sua força de vontade e as menções à ela em prefácios são quase de honra. Ela que lê seus manuscritos e os analisa, provavelmente dando opiniões e correções. Ela salvou “Carrie” do lixo e creio que muitos outros.

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Sinceramente, lembro pouco de como conheci o Stephen King, mas depois de tanto buscar, li sobre ele comprei o livro Celular na Bienal do Livro. Foi meu primeiro livro dele e acredito que foi uma boa introdução pra mim. O enredo do livro se ambienta em Boston e foca numa pessoa andando. Um desenhista de quadrinhos que praticamente passava fome até finalmente vender – pela primeira vez – uma criação sua. Ele comprou um presente caro para sua mulher do jeito que ela gosta. Afinal, tinha sido um ano difícil e ela não tinha parado de acreditar nele. Talvez fosse uma boa comprar uma HQ do Homem Aranha para o seu filho. Antes disso, poderia tomar um sorvete para se refrescar do calor que estava fazendo. Meu Deus, como ele queria ir correndo contar para sua esposa a novidade. Seus pensamentos rondavam sua família enquanto o desenhista agora empregado ficava na fila para o sorvete. Tinham poucas pessoas na fila e ele conseguiu ouvir o som de seus celulares tocando. Todos atenderam e parecia que depois disso algo tinha mudado. Algo dentro delas, o instinto mais animal, tinha aflorado e essas pessoas começaram a atacar umas às outras. E assim começa um cenário pós-apocalíptico com mortos-vivos ao tom do chamado Mestre do Terror. Ele cria uma atmosfera toda real com personagens como eu e você e, de repente, num detalhe… Ele desmonta tudo. Sem perder a verossimilhança. Sempre com bons argumentos e esse livro é um exemplo disso. Depois de um final eletrizante (e único), ainda tenho que ler que ele não possui telefone celular. Não preciso dizer que senti um pequeno pânico enquanto lia e encarava o meu próprio aparelho de celular, rezando para ele não tocar.

Fonte: http://www.coxinhanerd.com.br/wp-content/uploads/2014/07/Coxinha%20Nerd_79afef27ec9c31971258c0b814460da4.gif
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Ele não é o melhor escritor do mundo. Sua escrita não me faz delirar ou pensar no quanto ele é genial. Na verdade, posso citar alguns autores mais geniais que ele (na minha humilde opinião). Mas sua criatividade e versatilidade… Ah,isso sim me faz perder o fôlego. E a forma de me envolver em sua história… Poucos autores fazem isso comigo. Lembro de um conto em especial no livro de contos Sombras na Noite. Dentre diversos títulos, eu dava prioridade ao que me chamava a atenção primeiro. Um deles tinha o nome de Bicho Papão. Um conto com esse nome? Provavelmente infantil. Foi literalmente o último que li do livro. E foi o único que me fez olhar para o armário com medo. Juro. Posso citar os meus preferidos e os que o King perde um pouco a mão, mas aí já é mais pessoal ainda. Só gostaria de prestigiar um autor que tem minha admiração. Descubra ele. Talvez, além de encontrar coisas ruins, medianas e boas, você descobrirá histórias que te farão duvidar de seus conceitos, olhar para os lados com um pouco de terror e apreensão e também se maravilhar e adorar um simples ratinho como em À Espera de Um Milagre. Aconteceu comigo. 😉

Sniper Americano e seu herói construído

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Sniper Americano(2014) é um filme de guerra recente que conta a história do atirador mais conhecido para os norte-americanos na guerra do Iraque. O filme é baseado na obra autobiografia de Chris Kyle, American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military History. A Lenda, como é chamado, pode ter matado em torno de 255 homens, com 160 mortes confirmadas oficialmente pelo Pentágono. Foi treinado para notar quem representaria perigo para os soldados, salvando suas vidas. Seu complexo de herói não tinha limites e talvez seja a razão para que os expectadores se afeiçoassem a ele.

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 A caracterização do Bradley Cooper como o Chris Kyle beirou a perfeição. A rica barba, o sotaque sulista do Texas, e até o jeito tradicional que existe no estereótipo cowboy. Ele tinha um físico não apenas forte e definido, estilo Hollywood, mas parecia um armário, aqueles homens que parecem ter nascido para lutar, bastante semelhante ao próprio Kyle.  Além disso, desde o início nos é apresentada a índole cristã e ufanista do personagem, manifestada por esses cidadãos tradicionais dos filmes de guerra estadunidenses. Já viram States falando mal de States? Num filme político dificilmente temos isso, então a morte é justificada no filme indicando proteção.

 O cenário mesclava os turnos de Kyle com as voltas para casa. Foram quatro turnos, em que um turno representa um ano em ativa e um ano em casa. No Iraque, com a sua equipe, ele parecia confortável e determinado. Com apenas uma meta em sua vida: manter a segurança de sua equipe, que eram seus parentes sem relação sanguínea, e outros soldados em geral. Em casa, as lembranças da guerra ofuscavam sua vida com a família que tinha construído com sua mulher. Sons despertavam atitudes e mecanismos de defesa. Era o que seu organismo estava acostumado, a entrar em modo de luta a todo momento.

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 O som nesse filme para mim é outra coisa fantástica. Por isso talvez, o único Oscar que ganhou foi o de Melhor Edição de Som, dentre os cinco que foi indicado. Quando saí do filme, lembro de ter falado que o som fazia com que o filme fosse tridimensional para mim (principalmente a respiração do Chris). Sei que é uma frase estranha, mas tentarei explicar. Sons importantes eram destacados de outros e conseguíamos entender suas reações. Enquanto atirava, a sua respiração era a única a ser ouvida na cena, o que nos transportava pro que ele sentia. Nada teria importância até ele apertar o gatilho, o mundo sumia. E essas sensações eram passadas também pela atuação de Cooper, que mergulhou nesse papel. Eu não me sentia no cinema, e sim dentro da tela, do lado dele, fazendo a escolha junto com ele. Isso porque como tudo na vida é uma escolha, ele podia escolher sobre a vida daquelas pessoas. A carga emocional desse tipo de peso é perceptível no filme e o que humaniza e aproxima o público do grande herói criado.