Mulheres Inspiradoras do Cinema

No começo de abril desse ano, o site Polygraph disponibilizou uma pesquisa que objetivou analisar cerca de 2.500 roteiros de filmes com foco na divisão dos diálogos por gênero e idade. Algumas das conclusões:

– Homens são protagonistas de 78% dos filmes.

– Mulheres lideram os diálogos de apenas 22% dos filmes.

– Em apenas 18% dos filmes as mulheres ocupam pelo menos 2 dos 3 papéis principais.

– Os diálogos de personagens mulheres acima dos 40 anos de idade diminuem significativamente, enquanto para os homens é exatamente o oposto: há mais papéis disponíveis para os atores mais velhos.

Triste, né? Pois é justamente por isso que a minha segunda lista de indicações aqui no blog tem a temática “mulheres inspiradoras”. Selecionei 5 filmes que eu adoro e que são protagonizados por mulheres e suas personagens marcantes. Alguns são bem conhecidos, outros nem tanto, porém todos são ótimos por abordarem, cada um de forma singular, o empoderamento feminino.

E agora, onde vamos? (2011) – Diretora: Nadine Labaki

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Mulheres vestidas sempre de preto, armadas com esperanças e orações”

Sinopse: Muçulmanos e cristãos vivem em uma pequena comunidade no Líbano, cujo único elo de ligação com o mundo exterior é uma velha ponte, cercada por antigas minas terrestres que jamais foram removidas. O sinal de TV pega muito mal, o que faz com que não tenham muitas notícias sobre o que acontece no mundo. Apesar da comunidade ser dividida religiosamente, ela vive em paz. Até mesmo a igreja e a mesquita dividem espaço em uma mesma casa. Até que, um dia, os homens da comunidade começam a brigar entre si. É quando as mulheres entram em ação, procurando meios de mantê-los ocupados, de forma que não possam entrar em conflito.

O filme me atraiu por três motivos: por ser um filme libanês, pelo conflito religioso abordado e, o principal, pelo protagonismo feminino. E que bom que incluí esse filme em uma maratona cinéfila num sábado à tarde! A forte união entre as mulheres é movida pelo desejo de manter a paz, infelizmente fragilizada, onde moram. A forma como elas pensam em como distrair os seus maridos, filhos, irmãos, pais e amigos para que não briguem entre si é engraçada e, ao mesmo tempo, dramática. Quebram tabus, se divertem, se emocionam e, também, sofrem. Ver homens querendo matar outros por diferenças religiosas, ainda mais em uma vila pequena onde todos se conhecem, é a guerra pessoal que as fortes mulheres do “E agora, onde vamos?” buscam vencer.

Histórias Cruzadas (2011) – Diretor: Tate Taylor

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“Todos os dias, enquanto não estiver morta, quando acordar de manhã, terá que tomar algumas decisões. Terá que perguntar a si mesma: vou acreditar em todas as coisas ruins que aqueles tolos falarão de mim hoje?”

Sinopse: A história de otimismo ambientada no Mississippi em 1962, durante a gestação do movimento dos direitos civis nos EUA, acompanha Eugenia Phelan, jovem que acabou de se graduar e quer virar escritora, mas encontra a resistência da mãe, que quer vê-la casada. Aconselhada a escrever sobre o que a incomoda, Skeeter encontra um tema em duas mulheres negras: Aibileen, empregada que já ajudou a criar 17 crianças brancas mas chora a perda do próprio filho, e Minny, cozinheira de mão cheia que não arruma emprego porque não leva desaforo dos patrões para casa.

Eugenia, ou Skeeter, como é conhecida por todos, é o retrato da jovem que tenta fugir do que lhe é imposto apenas por ser mulher. É inspiradora por não concordar com a realidade social à sua volta e querer mudar isso através do seu talento como escritora. Ao se relacionar com Aibileen e Minny, empregadas domésticas que ainda sofrem terrivelmente com a herança da escravidão, Skeeter faz com que elas se sintam, pela primeira vez, pertencentes, humanizadas, com valor. A dor que essas mulheres sentem por toda injustiça a qual estão submetidas é o combustível para que, unidas, consigam alcançar a mudança – e não há nada mais inspirador que isso.

Que horas ela volta? (2015) – Diretora: Anna Muylaert.

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“Eu não me acho melhor do que ninguém, Val. Eu só não me acho pior.”

Sinopse: A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir a São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só́ que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Val e Jéssica, mãe e filha, são inspiradoras de formas diferentes. Jéssica não aceita que por ser pobre e “filha da empregada doméstica” precisa ser enquadrada em algum padrão distorcidamente definido pela elite brasileira: uma jovem sem educação e sem aspirações.  Desde que chega à Casa Grande dos patrões de sua mãe, Val, demonstra não concordar com o tratamento que eles lhe oferecem apenas por serem chefes, ou seja, por estarem “acima” dela. Nisso, Jéssica quebra tabus e desafia o frágil ego da elite que a quer ver no seu “devido lugar”. Jéssica surpreende a todos por ser, naturalmente, apenas quem ela é. Val, diferentemente, sempre se diminuiu perante os patrões, acreditando “fazer parte da família” e, por isso, ter que respeitar limites hierárquicos. Consegue se desconstruir ao longo do filme de maneira emocionante, por influência e sua própria filha, que a fez acreditar que ninguém merece ser tratado como inferior. Ninguém.

Tomates verdes fritos (1991) – Diretor: Jon Avnet

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“Você recordou-me qual a coisa mais importante da vida. Sabe o que eu acho que é? Amigos, bons amigos!”

Sinopse: Evelyn Couch (Kathy Bates) é uma dona de casa emocionalmente reprimida, que habitualmente afoga suas mágoas comendo doces. Ed (Gailard Sartain), o marido dela, quase não nota a existência de Evelyn. Toda semana eles vão visitar uma tia em um hospital, mas a parente nunca permite que Evelyn entre no quarto. Uma semana, enquanto ela espera que Ed termine sua visita, Evelyn conhece Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma debilitada mas gentil senhora de 83 anos, que ama contar histórias.

Um filme sobre amizade, amor, libertação. Ninny, por gostar tanto de narrar incríveis histórias, acaba se transformando na amiga e mentora que Evelyn precisava, uma mulher que se sente constantemente triste consigo mesma e com seu casamento. Os diálogos entre Ninny e Evelyn são inspiradores, assim como as vivências de Idgie e Ruth nas histórias de Ninny. Idgie, como é retratada, não se enquadrava em padrões impostos à mulheres da época, assim como não aceitava e batalhava contra as injustiças sociais daquele período. Uma menina forte, questionadora e revolucionária. No fim, “Tomates Verdes Fritos” é um filme pra rir, se emocionar, refletir e querer mais!

Thelma and Louise (1991) – Diretor: Ridley Scott

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“Eu me sinto acordada. Bem acordada. Não me lembro de me sentir tão acordada. Sabe como? Tudo parece diferente. Também se sente assim, como se esperasse algo da vida?”

Sinopse: Cansadas da vida monótona que levam, duas amigas, uma garçonete quarentona (Susan Sarandon) e uma jovem dona-de-casa (Geena Davis) resolvem deixar tudo para trás num fim de semana. Mas no caminho se envolvem em encrencas e acabam sendo perseguidas pela polícia.

Esse filme pode ser definido por uma palavra: sororidade. Sendo assim, Thelma e Louise são amigas que, de formas diferentes, cooperam com o empoderamento uma da outra durante uma road trip marcada por muitas emoções. Colocam a amizade acima de tudo para vencerem a opressão, ainda que de forma radical. Tudo nesse filme é uma crítica à misoginia e à nossa sociedade machista. Por isso, mesmo sendo um filme de 1991, acaba sendo muito atual – infelizmente.

Cinco graças (2015) – Diretor: Deniz Gamze Ergüven

cinco-gracas-poster“Usar essa roupa cor de merda não te faz guardiã da moral”

Sinopse: No início do verão em um vilarejo turco, Lale e suas 4 irmãs brincam de forma debochada com os meninos, o que acarreta em um escândalo de consequências muito fortes: a casa delas se torna praticamente uma prisão, elas aprendem a limpar ao invés de ir para a escola e seus casamentos começam a ser arranjados. As cinco não deixam de desejar a liberdade, e tentam resistir aos limites que lhes são impostos.

Um filme que mostra, de maneira doída e realista, como a repressão suga a liberdade das mulheres desde muito novas. É até desesperador – sem exagero – ver como as cinco irmãs que protagonizam o filme não querem viver presas aos limites que lhes são impostos desde pequenas. Como não podem ser elas mesmas, não podem ter aspirações, desejos, opiniões, ou seja, não podem ser donas de si. Não é porque o filme se passa na Turquia que estamos longe de nos identificarmos com o que é retratado, infelizmente. E é justamente por isso que as irmãs nos inspiram por suas percepções de que não merecem e não devem se prender a padrões que as oprimem, mesmo que na prática as coisas não sejam tão fáceis.

Menção honrosa: Miss Representation. (2011) – Diretora: Jennifer Siebel Newsom

miss-representation-ashxSe a mídia está mandando para as garotas a mensagem de que o valor delas está nos seus corpos, isso só vai fazê-las se sentirem impotentes e distrai-las de fazerem a diferença e se tornarem líderes.”

Sinopse: O filme explora a falta de representatividade na grande mídia do gênero feminino em posições de poder. Questiona o conceito de valoração da mulher baseada em beleza, juventude e sexualidade, em detrimento do talento e da capacidade de liderança e de contribuição e transformação do mundo em igualitário.

Os 6 filmes indicados foram todos de ficção, porém, achei justo colocar uma menção honrosa a esse documentário que é necessário e didático. Explora a falta de representatividade do gênero feminino em posições de poder na grande mídia, assim como questiona a valoração da mulher baseada em beleza, juventude e sexualidade, em detrimento do talento, intelecto e potencial para liderança. O efeito da mídia sobre a sociedade é enorme, principalmente em relação aos jovens. Mudar a forma como as mulheres são – e deixam de ser – representadas nos filmes, seriados, propagandas e afins, é de extrema importância para a busca de um mundo mais democrático e igualitário. Afinal, “você não pode ser o que não pode ver”.

 

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